Por Luiz Garcia - "O Globo"
Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — e isso é notícia velha — mostraram que os adolescentes brasileiros, com as exceções de praxe, têm relações pouco amistosas com o idioma do país.
A culpa, obviamente, não é deles: o problema está na estrutura do ensino. Em outras palavras, se alguns estudantes fossem o que poderíamos chamar, pedantemente, de analfabetos funcionais, o problema poderia ser examinado caso a caso. Alguns adolescentes poderiam ser ajudados a aprender o uso do idioma — e para outros não haveria solução possível.
Mas o problema é muito mais grave do que se pensava: ele foi identificado em jovens que estão concluindo cursos universitários. Ou seja, estamos formando, em quantidade alarmante, advogados, economistas, jornalistas, psicólogos etc. que não sabem se exprimir por escrito.
É tristemente curioso: nenhum time de futebol contrata os chamados "pernas de pau". Mas nas profissões que exigem formação universitária não há esse cuidado elementar. O Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) já detectou que é alarmante o número de estudantes que não sabem usar o idioma com um mínimo de eficiência. Há uma notícia mais grave: em recente exame a que foram submetidos jovens que estão concluindo cursos universitários, é elevado o número daqueles que têm relações extremamente inamistosas com o idioma. Isso acontece com estudantes supostamente considerados prontos para serem advogados, administradores, economistas, psicólogos.
Alguns exemplos, entre muitos: "egnorância", "enchergar", "rasoável". Não há exagero algum na conclusão de que esses jovens que não sabem escrever também têm relações pouco amistosas com a leitura. E estão se preparando para profissões em que a necessidade de ler é indispensável a vida toda.
O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirma que corrige com a necessária severidade as provas do Enem. É preciso registrar que a Ordem dos Advogados é também rigorosa no julgamento dos candidatos. Este ano, só foram aprovados pouco mais de 10% dos mais de cem mil candidatos.
Dessa discussão toda, o observador leigo pode tirar apenas uma conclusão óbvia: há uma quantidade de escolas de direito que diplomam um número excessivo de candidatos à profissão que não merecem o canudo.
Estamos formando, em quantidade alarmante, advogados, economistas, jornalistas, psicólogos etc. que não sabem se exprimir por escrito.
Fonte: http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2013/04/16/merecer-canudo-493538.asp
"Deus dá a liberdade às pessoas de pensar e escolher entre o bem e o mal, a decisão é delas".(Gay Talese)
terça-feira, 16 de abril de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
Oásis
Por Luis Fernando Verissimo
Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.
Os oásis e as miragens só podem existir nos desertos e os três autores citados por Toíbín viveram e escreveram nos seus respectivos refúgios do deserto. Dos três só um (O'Brien) produziu um texto longo, os outros só fizeram poesia e contos - uma literatura de oásis, nutrida pela imaginação de cada um em vez de pela aridez em volta, que podiam retratar apenas a distância, como paródia ou curiosidade. O fato de não contarem com uma cultura local estabelecida para alimentar sua criação, de certa maneira os autorizou a comer da tradição literária de todo o mundo, com licença para serem mais criativos do que todo o mundo. Pessoa e Borges, principalmente, eram multinacionais antes de inventarem o termo.
A linguagem do oásis é diferente da linguagem do deserto. A prática de viver em oásis permitiu aos três brincar com a linguagem e uma forma que seria impossível sem esta distância. A biografia dos três ajudou nesse sentido. Pessoa viveu na África do Sul entre os 7 e os 17 anos e quando voltou a Lisboa falava inglês melhor do que português. Muitos dos seus poemas foram escritos em inglês. Borges tinha uma avó inglesa que morava com a família, e cresceu falando espanhol e inglês. Dos 15 aos 22 anos Borges morou em Genebra, onde falava francês e inglês, além do espanhol. O'Obrien só falou irlandês até os 10 anos, e escrevia em irlandês e inglês. Uma língua vista de fora ou de longe revela todas as idiossincrasias e possibilidades que os que a falaram sempre nem sempre veem. O russo Nabokov escrevendo em inglês é um exemplo dos prodígios possíveis com uma língua recém-apreendida, e tem um predecessor igualmente admirável no polonês Joseph Conrad. Borges dizia que sua grande vontade literária era ter escrito toda a 11.ª edição da Enciclopédia Britânica. Em inglês, claro.
Outra afinidade citada por Toíbín é a afeição dos três por heterônimos. Pessoa usou, entre outros, os nomes Ricardo Reis, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Borges foi B.Suarez Lynch e H.Bustos Domecq. O nome verdadeiro de O'Brien era Brian O Nuallain e ele também escreveu com o pseudônimo (atenção revisor, é assim mesmo) Myles na gCopaleen. Heterônimos podem ser considerados miragens, figuras fluidas e imaginárias que só servem para fazer companhia nos oásis e serem cúmplices nos jogos com a linguagem de que os três gostavam tanto. Escreve Toíbín: "Não foi coincidência que os três não tiveram filhos, que não escreveram sobre mulheres ou, no caso de dois deles, eram levemente misóginos. Quando dois deles se casaram foi uma grande surpresa para seus amigos: pareciam mais confortáveis (ou mais confortavelmente desesperados) como solteiros do que como pais ou maridos. Na verdade, os três, apesar disto não ser da nossa conta, podem ter morrido virgens. Um deles disse que não tinha ambições ou desejos. "Ser um poeta não é uma ambição, é a minha maneira de estar sozinho."
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,oasis,1020736,0.htm
Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.
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Os oásis e as miragens só podem existir nos desertos e os três autores citados por Toíbín viveram e escreveram nos seus respectivos refúgios do deserto. Dos três só um (O'Brien) produziu um texto longo, os outros só fizeram poesia e contos - uma literatura de oásis, nutrida pela imaginação de cada um em vez de pela aridez em volta, que podiam retratar apenas a distância, como paródia ou curiosidade. O fato de não contarem com uma cultura local estabelecida para alimentar sua criação, de certa maneira os autorizou a comer da tradição literária de todo o mundo, com licença para serem mais criativos do que todo o mundo. Pessoa e Borges, principalmente, eram multinacionais antes de inventarem o termo.
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A linguagem do oásis é diferente da linguagem do deserto. A prática de viver em oásis permitiu aos três brincar com a linguagem e uma forma que seria impossível sem esta distância. A biografia dos três ajudou nesse sentido. Pessoa viveu na África do Sul entre os 7 e os 17 anos e quando voltou a Lisboa falava inglês melhor do que português. Muitos dos seus poemas foram escritos em inglês. Borges tinha uma avó inglesa que morava com a família, e cresceu falando espanhol e inglês. Dos 15 aos 22 anos Borges morou em Genebra, onde falava francês e inglês, além do espanhol. O'Obrien só falou irlandês até os 10 anos, e escrevia em irlandês e inglês. Uma língua vista de fora ou de longe revela todas as idiossincrasias e possibilidades que os que a falaram sempre nem sempre veem. O russo Nabokov escrevendo em inglês é um exemplo dos prodígios possíveis com uma língua recém-apreendida, e tem um predecessor igualmente admirável no polonês Joseph Conrad. Borges dizia que sua grande vontade literária era ter escrito toda a 11.ª edição da Enciclopédia Britânica. Em inglês, claro.
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Outra afinidade citada por Toíbín é a afeição dos três por heterônimos. Pessoa usou, entre outros, os nomes Ricardo Reis, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Borges foi B.Suarez Lynch e H.Bustos Domecq. O nome verdadeiro de O'Brien era Brian O Nuallain e ele também escreveu com o pseudônimo (atenção revisor, é assim mesmo) Myles na gCopaleen. Heterônimos podem ser considerados miragens, figuras fluidas e imaginárias que só servem para fazer companhia nos oásis e serem cúmplices nos jogos com a linguagem de que os três gostavam tanto. Escreve Toíbín: "Não foi coincidência que os três não tiveram filhos, que não escreveram sobre mulheres ou, no caso de dois deles, eram levemente misóginos. Quando dois deles se casaram foi uma grande surpresa para seus amigos: pareciam mais confortáveis (ou mais confortavelmente desesperados) como solteiros do que como pais ou maridos. Na verdade, os três, apesar disto não ser da nossa conta, podem ter morrido virgens. Um deles disse que não tinha ambições ou desejos. "Ser um poeta não é uma ambição, é a minha maneira de estar sozinho."
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,oasis,1020736,0.htm
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Minas e livros
Por Miriam Leitão - "O Globo"
Era um debate sobre jornalismo e literatura, com muita gente amiga na plateia que faz as duas coisas ou faz uma e pensa em também escrever livros. Foi ao fim de um dia chuvoso na última terça-feira, de trânsito travado em Brasília, e eu tinha passado a tarde no Ministério da Fazenda. As perguntas no teatro eram tão certeiras que era melhor ter resposta inteligente e sincera.
Há um conflito entre um e outro ofício? Ou um conluio? É isso que meu amigo Afonso Borges, que há 27 anos faz o evento literário Sempre um Papo, tem proposto para algumas duplas. Sérgio Abranches e eu, entre elas.
Numa dessas conversas, em São Paulo, dias atrás, demos de falar de Guimarães Rosa, que saiu pelo sertão de Minas anotando tudo, como se jornalista fosse, escreveu um livro inquietante e inesquecível “e espalhou pelo mundo”, como me disse uma vez um sertanejo, morador das cercanias do Parque Grande Sertão Veredas. A conversa rosiana nasceu quando alguém da plateia admitiu que nunca concluiu a travessia das 50 primeiras páginas. Ficamos explicando que o jeito de ler o grande livro é diferente; ele é cheio de veredas. O jeito é não se preocupar em saber cada palavra, mas ouvir a música.
Só escrevi não ficção, e a ficção é apenas uma veredazinha na qual fiz três livros infantis que estão com a Rocco para publicar. Jornalismo é o que eu tenho feito há 40 anos. E o novo livro que escrevo para a Intrínseca é também não ficção. Mas, às vezes, fujo para um quarto secreto e escrevo, escondido, entrando em outras veredas. Uma senhora no teatro admitiu que tem “rabiscado” a vida inteira sem coragem de escrever livros: o que deveria fazer com esse desejo secreto e irrealizado?
Sérgio Abranches, lançando em Brasília o seu romance “O Pelo Negro do Medo”, deu a ela a resposta que ouvimos da grande Ana Maria Machado. “Escreva para você e não para ser lida, depois de pronto o texto, pense o passo seguinte.”
Mas a pergunta do começo desta coluna deixei sem resposta. Acho que jornalismo e livros não estão em conflito. São companheiros, desde o início. Muita gente vai para o jornalismo por amar os livros e depois, em algum momento, encontra um veio que os leva aos livros. E eles são bem diferentes. Livro é lapidação. Difícil de fazer que assombra e intimida. Exige tudo o que se aprendeu no jornalismo e mais alguma coisa que talvez nem se tenha. Quem vai de um ofício ao outro sabe que as ferramentas da lapidação são afiadas diariamente no jornalismo. É um labor que pode levar ao livro-reportagem ou até à ficção, como acaba de fazer o mestre Zuenir Ventura, aos 80 anos, com seu excelente “Sagrada Família”.
Alguém me perguntou se, por acaso, eu escrevesse algo de ficção se a história seria ambientada em Minas. Disse sim, categórico. Mas o que é Minas? Fiquei intrigada depois, me perguntando isso. Passei mais tempo longe de Minas do que os tempos que vivi na terra. E em cada parada aprendi e me transformei — Espírito Santo, Brasília, São Paulo, Rio — mas o lugar no qual se nasce, e se fica nos primeiros anos, deixa marca que o tempo ressalta.
Dias atrás um amigo mineiro que mora na Europa me ligou de Paris e grande parte da conversa foi sobre o destino do Rio Doce. O rio que correu na cidade da sua infância ainda o preocupa tantos anos depois e com tanta distância interposta. Assim é o mistério dessas sensações primeiras que ficam.
Minas o que é? É tão interna que está condenada a ser nacional. Ela não tem saída para o mar, não tem um único pedaço de sua terra que não seja cercado de Brasil, e por isso sua história é sempre não paroquial e ligada ao sentimento de país. Veja-se a Inconfidência, chamada mineira, mas que é uma luta pela liberdade e independência do país. Minas é uma certa desconfiança de que há algo mais para saber atrás das montanhas. “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”, disse o jagunço Riobaldo, do escritor mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa, dono de linguagem universal. Minas é um certo mistério. “Ninguém sabe Minas, só o mineiro sabe e não conta”, avisou o itabirano Carlos Drummond de Andrade, que escolheu tão decididamente o Rio.
Não sei, na verdade, com que caminhos se vai do jornalismo à literatura, sei que não vou escolher. Se alcançar o segundo, não deixarei o primeiro por não saber respirar sem o jornalismo. Você pode me perguntar o que deu em mim de fugir tão completamente do assunto a que tenho que me dedicar nesse espaço. Respondo: nasci num 7 de abril, numa casa cheia de livros, em Minas. Esse foi o rio da minha infância. E hoje é dia do jornalista. Por motivo duplo me dei esse presente de inventar algo para escrever que não tenha ordem, apenas o prazer da prosa. Conto neste final da conversa que, hoje, a primeira coisa que farei será pisar o chão de Minas. Por nada. Só para ouvir o som da raiz primeira.
Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2013/04/07/minas-livros-492376.asp
Era um debate sobre jornalismo e literatura, com muita gente amiga na plateia que faz as duas coisas ou faz uma e pensa em também escrever livros. Foi ao fim de um dia chuvoso na última terça-feira, de trânsito travado em Brasília, e eu tinha passado a tarde no Ministério da Fazenda. As perguntas no teatro eram tão certeiras que era melhor ter resposta inteligente e sincera.
Há um conflito entre um e outro ofício? Ou um conluio? É isso que meu amigo Afonso Borges, que há 27 anos faz o evento literário Sempre um Papo, tem proposto para algumas duplas. Sérgio Abranches e eu, entre elas.
Numa dessas conversas, em São Paulo, dias atrás, demos de falar de Guimarães Rosa, que saiu pelo sertão de Minas anotando tudo, como se jornalista fosse, escreveu um livro inquietante e inesquecível “e espalhou pelo mundo”, como me disse uma vez um sertanejo, morador das cercanias do Parque Grande Sertão Veredas. A conversa rosiana nasceu quando alguém da plateia admitiu que nunca concluiu a travessia das 50 primeiras páginas. Ficamos explicando que o jeito de ler o grande livro é diferente; ele é cheio de veredas. O jeito é não se preocupar em saber cada palavra, mas ouvir a música.
Só escrevi não ficção, e a ficção é apenas uma veredazinha na qual fiz três livros infantis que estão com a Rocco para publicar. Jornalismo é o que eu tenho feito há 40 anos. E o novo livro que escrevo para a Intrínseca é também não ficção. Mas, às vezes, fujo para um quarto secreto e escrevo, escondido, entrando em outras veredas. Uma senhora no teatro admitiu que tem “rabiscado” a vida inteira sem coragem de escrever livros: o que deveria fazer com esse desejo secreto e irrealizado?
Sérgio Abranches, lançando em Brasília o seu romance “O Pelo Negro do Medo”, deu a ela a resposta que ouvimos da grande Ana Maria Machado. “Escreva para você e não para ser lida, depois de pronto o texto, pense o passo seguinte.”
Mas a pergunta do começo desta coluna deixei sem resposta. Acho que jornalismo e livros não estão em conflito. São companheiros, desde o início. Muita gente vai para o jornalismo por amar os livros e depois, em algum momento, encontra um veio que os leva aos livros. E eles são bem diferentes. Livro é lapidação. Difícil de fazer que assombra e intimida. Exige tudo o que se aprendeu no jornalismo e mais alguma coisa que talvez nem se tenha. Quem vai de um ofício ao outro sabe que as ferramentas da lapidação são afiadas diariamente no jornalismo. É um labor que pode levar ao livro-reportagem ou até à ficção, como acaba de fazer o mestre Zuenir Ventura, aos 80 anos, com seu excelente “Sagrada Família”.
Alguém me perguntou se, por acaso, eu escrevesse algo de ficção se a história seria ambientada em Minas. Disse sim, categórico. Mas o que é Minas? Fiquei intrigada depois, me perguntando isso. Passei mais tempo longe de Minas do que os tempos que vivi na terra. E em cada parada aprendi e me transformei — Espírito Santo, Brasília, São Paulo, Rio — mas o lugar no qual se nasce, e se fica nos primeiros anos, deixa marca que o tempo ressalta.
Dias atrás um amigo mineiro que mora na Europa me ligou de Paris e grande parte da conversa foi sobre o destino do Rio Doce. O rio que correu na cidade da sua infância ainda o preocupa tantos anos depois e com tanta distância interposta. Assim é o mistério dessas sensações primeiras que ficam.
Minas o que é? É tão interna que está condenada a ser nacional. Ela não tem saída para o mar, não tem um único pedaço de sua terra que não seja cercado de Brasil, e por isso sua história é sempre não paroquial e ligada ao sentimento de país. Veja-se a Inconfidência, chamada mineira, mas que é uma luta pela liberdade e independência do país. Minas é uma certa desconfiança de que há algo mais para saber atrás das montanhas. “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”, disse o jagunço Riobaldo, do escritor mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa, dono de linguagem universal. Minas é um certo mistério. “Ninguém sabe Minas, só o mineiro sabe e não conta”, avisou o itabirano Carlos Drummond de Andrade, que escolheu tão decididamente o Rio.
Não sei, na verdade, com que caminhos se vai do jornalismo à literatura, sei que não vou escolher. Se alcançar o segundo, não deixarei o primeiro por não saber respirar sem o jornalismo. Você pode me perguntar o que deu em mim de fugir tão completamente do assunto a que tenho que me dedicar nesse espaço. Respondo: nasci num 7 de abril, numa casa cheia de livros, em Minas. Esse foi o rio da minha infância. E hoje é dia do jornalista. Por motivo duplo me dei esse presente de inventar algo para escrever que não tenha ordem, apenas o prazer da prosa. Conto neste final da conversa que, hoje, a primeira coisa que farei será pisar o chão de Minas. Por nada. Só para ouvir o som da raiz primeira.
Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2013/04/07/minas-livros-492376.asp
terça-feira, 2 de abril de 2013
Por que nada acontece no país?
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Não são as décadas que nos transformam; são os fatos. Eles cavam buracos no tempo e criam caminhos que não podemos prever. Há épocas lentas, há épocas sangrentas, épocas eufóricas e ingênuas, há épocas que parecem ataques epiléticos da história.
Antigamente, achávamos que os fatos nos levariam a um futuro harmônico, que a vida era uma linha reta que ia desde os macacos até o paraíso cristão ou socialista ou, recentemente, ao fim da história.
Hoje vivemos em um labirinto de boas e más notícias, uma teia do homem aranha, um deserto do Iraque de ideias, um vazio de estupidez islâmica, um tempo de terrores como nos pesadelos de ficção científica. Antes, sonhávamos com o futuro; hoje, temos pavor de que ele chegue.
Na década de 60, ainda se comemorava a paz depois da guerra mundial, com euforia democrática movida pela prosperidade do capitalismo.
O mundo era dos jovens, era o oásis do pós-guerra. Havia o Vietnã, guerra fria, mas o clima das cabeças era de alegria. As saias curtas, as pernas de fora, as pílulas anticoncepcionais fazendo o sexo livre, a revolução gráfica desenhando uma vida ideal junto com a publicidade, havia um clima de ousadia, de fé, com a crença de que era simples fazer revoluções, de que o socialismo seria alegre e dançante em Cuba, de que os Beatles e os Rolling Stones nos libertariam para sempre da caretice. Mas, aos poucos, entendemos que o buraco do mundo era mais embaixo, que não bastavam palavras de ordem para vencer o conservadorismo.
Os líderes do sonho começaram a morrer. Guevara saiu de Cuba em busca da utopia e foi denunciado pelos próprios camponeses na Bolívia e morreu como um Cristo desmoralizado na selva.
As boas-novas sempre vinham anuladas por um desastre qualquer. A chegada do homem à Lua aconteceu ao mesmo tempo em que Sharon Tate, mulher de Polanski, grávida, foi morta a punhaladas por um bando de hippies enlouquecidos. A paz, o amor e a flor foram virando rancor, medo, ódio.
Aqui, a guerrilha urbana conseguiu seu maior feito - o rapto do embaixador americano Elbrick -, um gol de placa igual ao milésimo gol de Pelé no dia 19 de novembro de 69, junto também com a chegada do Médici ao poder, com sua cara de vampiro deprimido, enquanto o Marighella morria em São Paulo, enquanto os Beatles se separavam com a declaração de John Lennon de que o sonho tinha acabado.
Tudo ao mesmo tempo.
Aí, nada mais parou de acontecer no chamado "milagre brasileiro"; a burguesia enchendo a barriga de dinheiro em São Paulo e a violência militar e guerrilheira rolando solta; porrada e grana, enquanto a Transamazônica destruía a floresta, enquanto Leila Diniz morria num deserto da Índia, na queda de um Boeing japonês.
E assim fomos seguindo, com o progressivo fechamento da esperança, com os fatos ficando menores, mais episódicos, com as tragédias virando chanchadas e as alegrias murchando em melancolia. Era como se a grande História estivesse impedida e só as pequenas bobagens pudessem acontecer, prenunciando um futuro de inanidades, de irrelevâncias.
Nos anos 70, no Brasil, veio o misticismo laico da contracultura e as desgraças psiquiátricas causadas pela ditadura, enquanto um desastre de avião nos Andes provocava um banquete canibal na neve, Allende caía morto e subia o assassino Pinochet.
O fato mais importante foi a crise de petróleo em 73, com a Opep inaugurando a guerra fria entre o Oriente e o Ocidente, a mãe dos homens-bomba que até hoje nos assolam.
E assim fomos indo. Lembro-me do Tancredo no hospital e do sorriso deslumbrado dos médicos de Brasília, amparando o presidente como um boneco de ventríloquo para a opinião pública. "Vai morrer!" - arrepiei-me. O jaquetão do Sarney, deslumbrado e contristado, me arrepiou. A foto sorridente de Collor, na capa da Veja, com o título Caçador de Marajás, me deu pavor. Depois FHC e Lula (Se FHC não tivesse vencido, onde estaríamos hoje?).
E agora, que arrepio é este que sinto?
Estamos assistindo a uma nítida deterioração das instituições, quando ninguém teme mais nada, pois todos descobriram que delitos e corrupção "não têm bronca", não têm "pobrema". Como disse Lula uma vez: "Dossiê?... Ah, o povo pensa que é doce de batata..."
Este governo está desmoralizando os fatos. Os acontecimentos não acontecem, se diluem, morrem. Dilma anuncia medidas modernizantes, aeroportos, estradas de ferro, hidrovias, infraestrutura - mas tudo morre na praia; a burocracia sindicalista não permite.
Até aquele Paulinho da Força (com vários processos) consegue paralisar a reforma portuária... É espantoso.
Estive há pouco na Europa. Todos os países estão desesperados por problemas insolúveis. Espanha com 25 por cento de desempregados, a Itália com um ridículo palhaço levado a sério, a Holanda (até ela) está sem caixa, a América sob chantagem da direita, a Coreia um país psicótico sob um gordo louco, a primavera árabe morta e por aí vai...
Na imprensa mundial o Brasil é tratado como uma ex-esperança, atual vexame. Até o drama de Chipre vai nos beneficiar com ingresso de capitais. Estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de imbecis com dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do muro de Berlim. Esses canalhas desprezam a sociedade e acham que o Estado tem de nos tutelar.
Mas, até quando esse "chove-não-molha" vai aguentar?
Por que a besta do Brasil não prospera, por que continua atrás dos Brics, atrás da América Latina, por que até a Petrobrás caiu para a metade, saqueada pela porcada magra sindicalista? Por quê? Temos grana entrando, temos um governo com maioria total no Legislativo, sem oposição, sem nada. Por que não vamos para frente? Por quê, porra? Os diagnósticos são iguais no mundo todo: uma presidente rachada ao meio por fissuras ideológicas e dominada pela fome eleitoral do PT, a fim de virar um partido mexicano como o PRI. Os europeus têm inveja e desprezo por nós, porque eles querem sair da crise e não conseguem e nós temos tudo para nos salvar e não queremos...
Algo muito ruim cozinha em banho-maria nosso progresso. Há alguma coisa "não-acontecendo" no Brasil que me dá arrepios.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,por-que-nada-acontece-no-pais-,1015933,0.htm
Não são as décadas que nos transformam; são os fatos. Eles cavam buracos no tempo e criam caminhos que não podemos prever. Há épocas lentas, há épocas sangrentas, épocas eufóricas e ingênuas, há épocas que parecem ataques epiléticos da história.
Antigamente, achávamos que os fatos nos levariam a um futuro harmônico, que a vida era uma linha reta que ia desde os macacos até o paraíso cristão ou socialista ou, recentemente, ao fim da história.
Hoje vivemos em um labirinto de boas e más notícias, uma teia do homem aranha, um deserto do Iraque de ideias, um vazio de estupidez islâmica, um tempo de terrores como nos pesadelos de ficção científica. Antes, sonhávamos com o futuro; hoje, temos pavor de que ele chegue.
Na década de 60, ainda se comemorava a paz depois da guerra mundial, com euforia democrática movida pela prosperidade do capitalismo.
O mundo era dos jovens, era o oásis do pós-guerra. Havia o Vietnã, guerra fria, mas o clima das cabeças era de alegria. As saias curtas, as pernas de fora, as pílulas anticoncepcionais fazendo o sexo livre, a revolução gráfica desenhando uma vida ideal junto com a publicidade, havia um clima de ousadia, de fé, com a crença de que era simples fazer revoluções, de que o socialismo seria alegre e dançante em Cuba, de que os Beatles e os Rolling Stones nos libertariam para sempre da caretice. Mas, aos poucos, entendemos que o buraco do mundo era mais embaixo, que não bastavam palavras de ordem para vencer o conservadorismo.
Os líderes do sonho começaram a morrer. Guevara saiu de Cuba em busca da utopia e foi denunciado pelos próprios camponeses na Bolívia e morreu como um Cristo desmoralizado na selva.
As boas-novas sempre vinham anuladas por um desastre qualquer. A chegada do homem à Lua aconteceu ao mesmo tempo em que Sharon Tate, mulher de Polanski, grávida, foi morta a punhaladas por um bando de hippies enlouquecidos. A paz, o amor e a flor foram virando rancor, medo, ódio.
Aqui, a guerrilha urbana conseguiu seu maior feito - o rapto do embaixador americano Elbrick -, um gol de placa igual ao milésimo gol de Pelé no dia 19 de novembro de 69, junto também com a chegada do Médici ao poder, com sua cara de vampiro deprimido, enquanto o Marighella morria em São Paulo, enquanto os Beatles se separavam com a declaração de John Lennon de que o sonho tinha acabado.
Tudo ao mesmo tempo.
Aí, nada mais parou de acontecer no chamado "milagre brasileiro"; a burguesia enchendo a barriga de dinheiro em São Paulo e a violência militar e guerrilheira rolando solta; porrada e grana, enquanto a Transamazônica destruía a floresta, enquanto Leila Diniz morria num deserto da Índia, na queda de um Boeing japonês.
E assim fomos seguindo, com o progressivo fechamento da esperança, com os fatos ficando menores, mais episódicos, com as tragédias virando chanchadas e as alegrias murchando em melancolia. Era como se a grande História estivesse impedida e só as pequenas bobagens pudessem acontecer, prenunciando um futuro de inanidades, de irrelevâncias.
Nos anos 70, no Brasil, veio o misticismo laico da contracultura e as desgraças psiquiátricas causadas pela ditadura, enquanto um desastre de avião nos Andes provocava um banquete canibal na neve, Allende caía morto e subia o assassino Pinochet.
O fato mais importante foi a crise de petróleo em 73, com a Opep inaugurando a guerra fria entre o Oriente e o Ocidente, a mãe dos homens-bomba que até hoje nos assolam.
E assim fomos indo. Lembro-me do Tancredo no hospital e do sorriso deslumbrado dos médicos de Brasília, amparando o presidente como um boneco de ventríloquo para a opinião pública. "Vai morrer!" - arrepiei-me. O jaquetão do Sarney, deslumbrado e contristado, me arrepiou. A foto sorridente de Collor, na capa da Veja, com o título Caçador de Marajás, me deu pavor. Depois FHC e Lula (Se FHC não tivesse vencido, onde estaríamos hoje?).
E agora, que arrepio é este que sinto?
Estamos assistindo a uma nítida deterioração das instituições, quando ninguém teme mais nada, pois todos descobriram que delitos e corrupção "não têm bronca", não têm "pobrema". Como disse Lula uma vez: "Dossiê?... Ah, o povo pensa que é doce de batata..."
Este governo está desmoralizando os fatos. Os acontecimentos não acontecem, se diluem, morrem. Dilma anuncia medidas modernizantes, aeroportos, estradas de ferro, hidrovias, infraestrutura - mas tudo morre na praia; a burocracia sindicalista não permite.
Até aquele Paulinho da Força (com vários processos) consegue paralisar a reforma portuária... É espantoso.
Estive há pouco na Europa. Todos os países estão desesperados por problemas insolúveis. Espanha com 25 por cento de desempregados, a Itália com um ridículo palhaço levado a sério, a Holanda (até ela) está sem caixa, a América sob chantagem da direita, a Coreia um país psicótico sob um gordo louco, a primavera árabe morta e por aí vai...
Na imprensa mundial o Brasil é tratado como uma ex-esperança, atual vexame. Até o drama de Chipre vai nos beneficiar com ingresso de capitais. Estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de imbecis com dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do muro de Berlim. Esses canalhas desprezam a sociedade e acham que o Estado tem de nos tutelar.
Mas, até quando esse "chove-não-molha" vai aguentar?
Por que a besta do Brasil não prospera, por que continua atrás dos Brics, atrás da América Latina, por que até a Petrobrás caiu para a metade, saqueada pela porcada magra sindicalista? Por quê? Temos grana entrando, temos um governo com maioria total no Legislativo, sem oposição, sem nada. Por que não vamos para frente? Por quê, porra? Os diagnósticos são iguais no mundo todo: uma presidente rachada ao meio por fissuras ideológicas e dominada pela fome eleitoral do PT, a fim de virar um partido mexicano como o PRI. Os europeus têm inveja e desprezo por nós, porque eles querem sair da crise e não conseguem e nós temos tudo para nos salvar e não queremos...
Algo muito ruim cozinha em banho-maria nosso progresso. Há alguma coisa "não-acontecendo" no Brasil que me dá arrepios.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,por-que-nada-acontece-no-pais-,1015933,0.htm
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Por que nada acontece no país?
segunda-feira, 25 de março de 2013
Dois cafés e a conta com Jonathan Caroba
*Por Mauro Ventura
Jonathan Caroba, que passou em terceiro lugar em Jornalismo na Uerj: ex-aluno do Nave Mauro Ventura / Agência O Globo
O morador do Complexo da Maré que é exemplo de sucesso do Nave, escola pública eleita pela Microsoft uma das mais inovadoras do mundo
RIO - No dia 14, o Colégio Estadual José Leite Lopes, mais conhecido como Nave (Núcleo Avançado em Educação), na Tijuca, foi reconhecido pela Microsoft como uma das 33 escolas mais inovadoras do mundo. É a única do Brasil na lista. Na cerimônia, um aluno arrancou uma ovação do público com sua apresentação. Morador da Maré, Jonathan Caroba, de 17 anos, é um dos casos de sucesso do Nave, parceria do Oi Futuro com a secretaria estadual de Educação que atrai por ano 5 mil candidatos para 160 vagas.
Dirigida por Ana Paula Bessa, a escola pública integral (das 7h às 17h) de ensino médio profissionalizante oferece três carreiras técnicas além do currículo regular: multimídia, programação de games e roteiro para novas mídias, curso escolhido por Jonathan, que passou agora em terceiro lugar em Jornalismo na Uerj, sem cursinho, e estagia no Nave, no Departamento de Mídiaeducação, gerido pelo planetapontocom, instituto que tem como missão produzir soluções inovadoras para a educação pública brasileira. A ideia do Nave é preparar o jovem não só para ser empregado, como também empreender.
Michel Levy, presidente da Microsoft Brasil, diz: “É emocionante quando vemos na prática a transformação da vida de um estudante a partir da inovação nos processos educacionais com o uso da tecnologia como meio. A história do Jonathan é um dos exemplos de como mudanças no processo de ensino e aprendizagem podem transformar a vida de alunos, que passam a contar com perspectivas de crescimento humano e profissionais ainda melhores. O projeto Nave é destaque mundial, pois vai além da capacitação profissional e prepara os jovens com competências de liderança, contribuindo para a formação de líderes contemporâneos.”
REVISTA O GLOBO: O Nave foi eleito uma das escolas mais criativas do mundo. Na cerimônia, você fez uma apresentação elogiadíssima...
JONATHAN CAROBA: O Nave faz com que os alunos sejam proativos. Tem muita prática. Fizemos blog, jornal online, games, roteiros, curtas. Mas usar o computador para ensinar não é novo, a didática é que faz a diferença. Na entrega do título, simulei uma conversa com uma versão minha no passado. Escrevi o roteiro num dia, a partir de uma ideia de Fernanda Sarmento (coordenadora de projetos de educação e games do Oi Futuro) e ensaiei com nosso professor de teatro, Carlos Marapod. No dia da cerimônia, eu estava sentado na plateia quando tocou meu celular num volume altíssimo, com uma música inconveniente. Todo mundo olhou para mim. Levantei-me, subi ao palco e disse que ia atender uma ligação importante. Quando falei alô surgiu um vídeo em que eu aparecia como se fosse três anos antes, entrando na escola. Há uma conversa entre os “dois”. No vídeo, falo das expectativas que tenho ao entrar na escola. Ao vivo, vou contando as realizações de lá para cá, como ter sido o primeiro da família a chegar à faculdade e estar estagiando.
De que forma seus pais estimularam seus estudos?
Quando você é da favela, tem inclinação a trabalhar cedo, constituir família, mas meus pais sempre me incentivaram a estudar. Minha mãe é doméstica, tem apenas o ensino fundamental. Meu pai era porteiro e hoje é auxiliar de produção em fábrica de salgados, nunca foi à escola, sabe ler e escrever por iniciativa própria. Mas eles sempre deram apoio psicológico: “Você tem a vida que nunca tive, tem uma visão de futuro que não tenho mais. Tem que aproveitar bem isso.” Minha mãe ia todo mês à escola saber como eu estava em sala de aula, conversava com os professores, não perdia uma reunião de pais. Olhava os cadernos para ver se tinha recado, acompanhava o boletim, procurava saber o que eu achava do colégio, cobrava notas altas.
Como é sua família?
Meus pais são casados há 19 anos. Sou filho único. Todos os meus amigos têm irmãos, mas minha mãe sempre quis um filho só, por questões econômicas. A estabilidade familiar me ajudou, mas existem outras pessoas daqui da Maré que não tiveram essa base e que conseguiram um espaço semelhante ao meu. Tenho uma amiga, caçula de quatro irmãos, cada um de um pai diferente, que perdeu a mãe aos 7 anos e só viu o pai duas vezes, e que está na universidade também.
As pessoas se surpreendem quando sabem de suas origens?
Poucos acreditam quando falo que moro no Complexo da Maré. Mas é questão de saber se colocar. Não usar gíria, se vestir de maneira adequada ao ambiente. Fiz entrevistas de estágio e se espantavam por eu ser da favela: “Você fala bem.” Na cerimônia da Microsoft, quando falei ao diretor de uma empresa que era da Maré ele levou um susto: “Faz muito tempo que não converso com alguém que mora na favela.” Mas as próprias pessoas da favela se autodiscriminam, têm vergonha de dizer onde moram e estudam. A sociedade faz com que se sintam inferiores. Lembro da primeira vez que fui à Academia Brasileira de Letras (ABL), com minha mãe e uma vizinha. Queria conhecer a biblioteca de lá. Minha vizinha não queria ir: “Não tenho roupa, as pessoas vão olhar para mim de modo estranho.“ Ela já tinha sido discriminada e tinha medo de se expor. Acabou que fomos tão bem recebidos que ela ficou maravilhada e chorou.
Como é a vida de um jovem na favela?
Se você nasce na favela, sua perspectiva de vida é outra. A visão de futuro é menos abrangente. O jovem fica muito focado no agora. Há poucas chances de educação, trabalho e cultura. Você acorda bem cedo, anda muito até o ponto de ônibus, pega condução lotada, às vezes dorme sob tiroteio. Algumas pessoas deveriam passar uma temporada na favela, para ver se valorizam as oportunidades que têm.
Qual o seu gosto musical?
Gosto de bossa nova e samba. Na verdade, só não ouço funk e rap. Mas na Maré ouve-se funk 24 horas por dia no volume máximo. Mas eu fico muito tempo fora, saio de casa às 7h e só volto às 19h, 20h, 20h30m. Quando estou na favela, fecho todas as portas e janelas e ouço Elis, Tom, Maria Rita.
Como você fazia para ter uma programação cultural?
Nunca tive mesada, somente depois que entrei no Nave. Eu estudava em Ciep anteriormente. Como só tinha internet discada em casa, procurava programas culturais no computador do colégio e sugeria aos professores, já que existem saídas pedagógicas oferecidas pelo governo aos colégios. Com isso, a escola nos levou à Bienal do Livro, a museus. Sempre gostei de teatro, exposição, cinema, leitura. Por iniciativa própria, vou a locais gratuitos ou baratos, como CCBB, Caixa Cultural, museus. Na biblioteca da Maré, li Machado de Assis, José de Alencar, os clássicos. A falta de dinheiro não pode servir de desculpa.
*A coluna é publicada aos domingos na Revista O GLOBO
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/dois-cafes-a-conta-com-jonathan-caroba-7925510
RIO - No dia 14, o Colégio Estadual José Leite Lopes, mais conhecido como Nave (Núcleo Avançado em Educação), na Tijuca, foi reconhecido pela Microsoft como uma das 33 escolas mais inovadoras do mundo. É a única do Brasil na lista. Na cerimônia, um aluno arrancou uma ovação do público com sua apresentação. Morador da Maré, Jonathan Caroba, de 17 anos, é um dos casos de sucesso do Nave, parceria do Oi Futuro com a secretaria estadual de Educação que atrai por ano 5 mil candidatos para 160 vagas.
Dirigida por Ana Paula Bessa, a escola pública integral (das 7h às 17h) de ensino médio profissionalizante oferece três carreiras técnicas além do currículo regular: multimídia, programação de games e roteiro para novas mídias, curso escolhido por Jonathan, que passou agora em terceiro lugar em Jornalismo na Uerj, sem cursinho, e estagia no Nave, no Departamento de Mídiaeducação, gerido pelo planetapontocom, instituto que tem como missão produzir soluções inovadoras para a educação pública brasileira. A ideia do Nave é preparar o jovem não só para ser empregado, como também empreender.
Michel Levy, presidente da Microsoft Brasil, diz: “É emocionante quando vemos na prática a transformação da vida de um estudante a partir da inovação nos processos educacionais com o uso da tecnologia como meio. A história do Jonathan é um dos exemplos de como mudanças no processo de ensino e aprendizagem podem transformar a vida de alunos, que passam a contar com perspectivas de crescimento humano e profissionais ainda melhores. O projeto Nave é destaque mundial, pois vai além da capacitação profissional e prepara os jovens com competências de liderança, contribuindo para a formação de líderes contemporâneos.”
REVISTA O GLOBO: O Nave foi eleito uma das escolas mais criativas do mundo. Na cerimônia, você fez uma apresentação elogiadíssima...
JONATHAN CAROBA: O Nave faz com que os alunos sejam proativos. Tem muita prática. Fizemos blog, jornal online, games, roteiros, curtas. Mas usar o computador para ensinar não é novo, a didática é que faz a diferença. Na entrega do título, simulei uma conversa com uma versão minha no passado. Escrevi o roteiro num dia, a partir de uma ideia de Fernanda Sarmento (coordenadora de projetos de educação e games do Oi Futuro) e ensaiei com nosso professor de teatro, Carlos Marapod. No dia da cerimônia, eu estava sentado na plateia quando tocou meu celular num volume altíssimo, com uma música inconveniente. Todo mundo olhou para mim. Levantei-me, subi ao palco e disse que ia atender uma ligação importante. Quando falei alô surgiu um vídeo em que eu aparecia como se fosse três anos antes, entrando na escola. Há uma conversa entre os “dois”. No vídeo, falo das expectativas que tenho ao entrar na escola. Ao vivo, vou contando as realizações de lá para cá, como ter sido o primeiro da família a chegar à faculdade e estar estagiando.
De que forma seus pais estimularam seus estudos?
Quando você é da favela, tem inclinação a trabalhar cedo, constituir família, mas meus pais sempre me incentivaram a estudar. Minha mãe é doméstica, tem apenas o ensino fundamental. Meu pai era porteiro e hoje é auxiliar de produção em fábrica de salgados, nunca foi à escola, sabe ler e escrever por iniciativa própria. Mas eles sempre deram apoio psicológico: “Você tem a vida que nunca tive, tem uma visão de futuro que não tenho mais. Tem que aproveitar bem isso.” Minha mãe ia todo mês à escola saber como eu estava em sala de aula, conversava com os professores, não perdia uma reunião de pais. Olhava os cadernos para ver se tinha recado, acompanhava o boletim, procurava saber o que eu achava do colégio, cobrava notas altas.
Como é sua família?
Meus pais são casados há 19 anos. Sou filho único. Todos os meus amigos têm irmãos, mas minha mãe sempre quis um filho só, por questões econômicas. A estabilidade familiar me ajudou, mas existem outras pessoas daqui da Maré que não tiveram essa base e que conseguiram um espaço semelhante ao meu. Tenho uma amiga, caçula de quatro irmãos, cada um de um pai diferente, que perdeu a mãe aos 7 anos e só viu o pai duas vezes, e que está na universidade também.
As pessoas se surpreendem quando sabem de suas origens?
Poucos acreditam quando falo que moro no Complexo da Maré. Mas é questão de saber se colocar. Não usar gíria, se vestir de maneira adequada ao ambiente. Fiz entrevistas de estágio e se espantavam por eu ser da favela: “Você fala bem.” Na cerimônia da Microsoft, quando falei ao diretor de uma empresa que era da Maré ele levou um susto: “Faz muito tempo que não converso com alguém que mora na favela.” Mas as próprias pessoas da favela se autodiscriminam, têm vergonha de dizer onde moram e estudam. A sociedade faz com que se sintam inferiores. Lembro da primeira vez que fui à Academia Brasileira de Letras (ABL), com minha mãe e uma vizinha. Queria conhecer a biblioteca de lá. Minha vizinha não queria ir: “Não tenho roupa, as pessoas vão olhar para mim de modo estranho.“ Ela já tinha sido discriminada e tinha medo de se expor. Acabou que fomos tão bem recebidos que ela ficou maravilhada e chorou.
Como é a vida de um jovem na favela?
Se você nasce na favela, sua perspectiva de vida é outra. A visão de futuro é menos abrangente. O jovem fica muito focado no agora. Há poucas chances de educação, trabalho e cultura. Você acorda bem cedo, anda muito até o ponto de ônibus, pega condução lotada, às vezes dorme sob tiroteio. Algumas pessoas deveriam passar uma temporada na favela, para ver se valorizam as oportunidades que têm.
Qual o seu gosto musical?
Gosto de bossa nova e samba. Na verdade, só não ouço funk e rap. Mas na Maré ouve-se funk 24 horas por dia no volume máximo. Mas eu fico muito tempo fora, saio de casa às 7h e só volto às 19h, 20h, 20h30m. Quando estou na favela, fecho todas as portas e janelas e ouço Elis, Tom, Maria Rita.
Como você fazia para ter uma programação cultural?
Nunca tive mesada, somente depois que entrei no Nave. Eu estudava em Ciep anteriormente. Como só tinha internet discada em casa, procurava programas culturais no computador do colégio e sugeria aos professores, já que existem saídas pedagógicas oferecidas pelo governo aos colégios. Com isso, a escola nos levou à Bienal do Livro, a museus. Sempre gostei de teatro, exposição, cinema, leitura. Por iniciativa própria, vou a locais gratuitos ou baratos, como CCBB, Caixa Cultural, museus. Na biblioteca da Maré, li Machado de Assis, José de Alencar, os clássicos. A falta de dinheiro não pode servir de desculpa.
*A coluna é publicada aos domingos na Revista O GLOBO
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/dois-cafes-a-conta-com-jonathan-caroba-7925510
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Dois cafés e a conta com Jonathan Caroba
A REDAÇÃO DO ENEM
Por Joaquim Ferreira dos Santos*
Sabe todo mundo que escreve, até mesmo os jornalistas, os mais humildes funcionários da palavra, da necessidade de um texto arrebentar de brilho na abertura e se encerrar retumbante, com aquilo que os antigos do soneto chamavam de chave de ouro. O miolo, bem, o miolo dá-se um jeito.
A literatura mundial está cheia de casos assim. Frases incríveis na página um de livros que depois, coitados, o escritor vai se cansando, a falta de imaginação se sobrepondo à sua pequena estatura intelectual, e tudo escorre ladeira abaixo até ele acordar na última linha para o dó de peito estilístico, levantador de plateias.
Eu quase escrevo “ladeira abaicho”, pois este texto pretende se solidarizar, pelo menos entender e dizer não é 'fássil' pra ninguém, com os estudantes que fizeram as provas de redação do Enem. Eles 'enxeram' os textos desses 'orríveis' erros 'hortográficos' e sofreram o mesmo drama dos profissionais da escrita. O que, caraca!, que 1linguissa1, caramba!, botar entre o brilhareco da frase de abertura e o fecho de ouro?
Teve estudante que colocou o hino do Palmeiras, outros, a receita de miojo. Eu aproveito o ensejo, já que estamos chegando ao miolo, para dizer que lá em casa tem um bigorrilho e que esse bigorrilho fazia mingau, foi ele quem me ensinou a tirar o cavaco do pau.
Em baixa dramaturgia, como a que é praticada na novela das nove ou na moderna literatura brasileira, o problema desse bigorrilho sem nexo é vulgarmente identificado como barriga. O nome é perfeito. No ser humano designa aquele estrupício cheio de longas tripas entre o rosto angelical e o delicioso parque de diversões da sexualidade. Em arte, é o ronco das tripas do leitor reclamando a grana de volta.
Na novela da Globo, a barriga é escancarada naquelas cenas em câmera lenta, diálogos intermináveis, com zero de acontecimentos, no ar apenas para que ela se estique e chegue aos 180 capítulos regulamentares, e pague a produção.
No romance, a barriga está nas páginas e mais páginas, geralmente descritivas da luz ao pôr do sol, feitas apenas para que o livro saia da definição menos comercial de contos ou ganhe solidez física. Editores adoram encomendar livros que fiquem de pé no balcão da Travessa. Pedem “algo em torno de” 400 páginas, pois acham que paralelepípedos aparentam força intelectual. Na verdade, esses tijolaços sinalizam que é grande o risco de se estar comprando uma obesidade narrativa.
Ninguém quer carregar uma barriga, mas, como todos sabemos, não só os que escrevem, elas aparecem insistentes mesmo malhadas diariamente com o ferro das abdominais.
Os estudantes, amadores de texto, erraram apenas em evidenciar, com os hinos clubísticos e as receitas de alta caloria, que seus textos eram portadores desse mal terrível. Um autor de hai-kai, por mais genial, não passaria no vestibular. Uma novela de três linhas do Dalton Trevisan também teria poucas chances. Estamos num país onde a verborragia é elogiada, a oratória barroca do deputado baiano é mito intelectual. Na contramão desses delírios, Drummond dizia “escrever é cortar palavras”.
Na prova do Enem, os estudantes sabem que os professores gostam de volume. E foi o que eles deram, um punhado de palavras significando nada. Um levou nota mil. Outro, 500.
O Brasil adora uma barriga, uma encheção de linguiça. Drummond seria reprovado. Rubem Braga, sempre aconselhando “palavras curtas”, também não iria longe. Eu li os textos barrigudos do Enem e notei, além da necessidade de esticar o assunto, de se esticar também as palavras. Quanto maiores elas forem, mais a impressão dão de se estar inconstitucionalissimamente dizendo algum coisa.
A prova de redação do Enem é a melhor crítica literária da relação do país com a sua maneira de ler, escrever e reconhecer mérito.
Os estudantes perceberam que a verborragia insaciável e sem sentido (“sou deputado baiano, eu quero é falar”, dizia a marchinha) agrada a plateia. Mandaram brasa, com o repertório que tinham para preencher a falta de assunto. Sabiam que ninguém presta atenção (como parece ter sido o caso dos professores encarregados de pontuar o que não estavam lendo). Sem citar nomes, passavam adiante os ensinamentos dos grandes mestres nacionais da língua, gênios como o José Luiz Datena, o Sílvio Santos, o Faustão, o Galvão Bueno, metralhadoras verbais que passam horas no ar dizendo... o quê mesmo?
Fala-se pelos cotovelos, há gordura por todos os cantos dos textos — é o normal da civilização brasileira —, e os professores do Enem não precisaram nem ler. Diante da evidência caudalosa de que estavam diante de imensas barrigas literárias, deram dez, nota dez. Este é o país em que o presidente Juscelino Kubitschek, para encher de pompa os discursos, pedia ao redator: “Espalhe umas borboletas entre os parágrafos”. Estudantes, anarquistas graças a Deus, espalharam miojo e banha de porco.
*Joaquim Ferreira dos Santos é colunista do GLOBO, onde publica sua crônica às segundas e diariamente a coluna Gente Boa, no Segundo Caderno
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2013/03/25/a-redacao-do-enem-490905.asp
Sabe todo mundo que escreve, até mesmo os jornalistas, os mais humildes funcionários da palavra, da necessidade de um texto arrebentar de brilho na abertura e se encerrar retumbante, com aquilo que os antigos do soneto chamavam de chave de ouro. O miolo, bem, o miolo dá-se um jeito.
A literatura mundial está cheia de casos assim. Frases incríveis na página um de livros que depois, coitados, o escritor vai se cansando, a falta de imaginação se sobrepondo à sua pequena estatura intelectual, e tudo escorre ladeira abaixo até ele acordar na última linha para o dó de peito estilístico, levantador de plateias.
Eu quase escrevo “ladeira abaicho”, pois este texto pretende se solidarizar, pelo menos entender e dizer não é 'fássil' pra ninguém, com os estudantes que fizeram as provas de redação do Enem. Eles 'enxeram' os textos desses 'orríveis' erros 'hortográficos' e sofreram o mesmo drama dos profissionais da escrita. O que, caraca!, que 1linguissa1, caramba!, botar entre o brilhareco da frase de abertura e o fecho de ouro?
Teve estudante que colocou o hino do Palmeiras, outros, a receita de miojo. Eu aproveito o ensejo, já que estamos chegando ao miolo, para dizer que lá em casa tem um bigorrilho e que esse bigorrilho fazia mingau, foi ele quem me ensinou a tirar o cavaco do pau.
Em baixa dramaturgia, como a que é praticada na novela das nove ou na moderna literatura brasileira, o problema desse bigorrilho sem nexo é vulgarmente identificado como barriga. O nome é perfeito. No ser humano designa aquele estrupício cheio de longas tripas entre o rosto angelical e o delicioso parque de diversões da sexualidade. Em arte, é o ronco das tripas do leitor reclamando a grana de volta.
Na novela da Globo, a barriga é escancarada naquelas cenas em câmera lenta, diálogos intermináveis, com zero de acontecimentos, no ar apenas para que ela se estique e chegue aos 180 capítulos regulamentares, e pague a produção.
No romance, a barriga está nas páginas e mais páginas, geralmente descritivas da luz ao pôr do sol, feitas apenas para que o livro saia da definição menos comercial de contos ou ganhe solidez física. Editores adoram encomendar livros que fiquem de pé no balcão da Travessa. Pedem “algo em torno de” 400 páginas, pois acham que paralelepípedos aparentam força intelectual. Na verdade, esses tijolaços sinalizam que é grande o risco de se estar comprando uma obesidade narrativa.
Ninguém quer carregar uma barriga, mas, como todos sabemos, não só os que escrevem, elas aparecem insistentes mesmo malhadas diariamente com o ferro das abdominais.
Os estudantes, amadores de texto, erraram apenas em evidenciar, com os hinos clubísticos e as receitas de alta caloria, que seus textos eram portadores desse mal terrível. Um autor de hai-kai, por mais genial, não passaria no vestibular. Uma novela de três linhas do Dalton Trevisan também teria poucas chances. Estamos num país onde a verborragia é elogiada, a oratória barroca do deputado baiano é mito intelectual. Na contramão desses delírios, Drummond dizia “escrever é cortar palavras”.
Na prova do Enem, os estudantes sabem que os professores gostam de volume. E foi o que eles deram, um punhado de palavras significando nada. Um levou nota mil. Outro, 500.
O Brasil adora uma barriga, uma encheção de linguiça. Drummond seria reprovado. Rubem Braga, sempre aconselhando “palavras curtas”, também não iria longe. Eu li os textos barrigudos do Enem e notei, além da necessidade de esticar o assunto, de se esticar também as palavras. Quanto maiores elas forem, mais a impressão dão de se estar inconstitucionalissimamente dizendo algum coisa.
A prova de redação do Enem é a melhor crítica literária da relação do país com a sua maneira de ler, escrever e reconhecer mérito.
Os estudantes perceberam que a verborragia insaciável e sem sentido (“sou deputado baiano, eu quero é falar”, dizia a marchinha) agrada a plateia. Mandaram brasa, com o repertório que tinham para preencher a falta de assunto. Sabiam que ninguém presta atenção (como parece ter sido o caso dos professores encarregados de pontuar o que não estavam lendo). Sem citar nomes, passavam adiante os ensinamentos dos grandes mestres nacionais da língua, gênios como o José Luiz Datena, o Sílvio Santos, o Faustão, o Galvão Bueno, metralhadoras verbais que passam horas no ar dizendo... o quê mesmo?
Fala-se pelos cotovelos, há gordura por todos os cantos dos textos — é o normal da civilização brasileira —, e os professores do Enem não precisaram nem ler. Diante da evidência caudalosa de que estavam diante de imensas barrigas literárias, deram dez, nota dez. Este é o país em que o presidente Juscelino Kubitschek, para encher de pompa os discursos, pedia ao redator: “Espalhe umas borboletas entre os parágrafos”. Estudantes, anarquistas graças a Deus, espalharam miojo e banha de porco.
*Joaquim Ferreira dos Santos é colunista do GLOBO, onde publica sua crônica às segundas e diariamente a coluna Gente Boa, no Segundo Caderno
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2013/03/25/a-redacao-do-enem-490905.asp
domingo, 24 de março de 2013
'É estúpido que cidades ricas sejam infelizes'
EDISON VEIGA - O Estado de S.Paulo
O sociólogo italiano Domenico de Masi, de 75 anos, professor da Universidade La Sapienza, de Roma, reafirmou na semana passada, em visita ao Brasil, sua admiração pelo País. Ele também analisou a vocação de São Paulo em meio ao cenário socioeconômico contemporâneo e disse que a cidade tem de ser uma "vitrine de criatividade".
"O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes", disse o pensador, que se tornou famoso após a publicação, em 1995, do livro O Ócio Criativo (lançado no Brasil em 2000).
Na obra, Masi defende uma vida mais equilibrada entre trabalho, estudo e lazer. "Às vezes, as pessoas fazem confusão. Ócio criativo não significa não fazer nada, não é preguiça", ressaltou. "Ócio criativo é o trabalho prazeroso, é aliar trabalho a lazer e alegria, transformando-o, portanto, em um trabalho criativo."
Em meio a uma maratona de eventos prevista em sua agenda no Brasil, o sociólogo recebeu a reportagem do Estado na tarde de terça-feira, antes de proferir uma palestra para os professores e funcionários do Colégio Dante Alighieri, no bairro dos Jardins, na zona sul da capital paulista.
Como falar em ócio criativo em São Paulo, uma cidade em que as pessoas perdem tanto tempo no trânsito e no trabalho?
O trânsito exagerado é uma demonstração de progresso não equilibrado. Essa situação poderia ser aliviada com a intensificação do teletrabalho (sistema de home office, em que o trabalhador realiza as tarefas em seu domicílio, com ajuda da internet e outras tecnologias). Por que essa necessidade de ir ao escritório? Eu chamo isso de complexo de Bill Clinton, em que o sujeito quer ir ao escritório só para encontrar a estagiária. Hoje em dia, é possível trabalhar tranquilamente de casa. A questão é a felicidade.
De que maneira a felicidade pode ser consequência desse processo?
Da riqueza, precisamos extrair a felicidade. É estúpido que cidades mais ricas sejam mais infelizes. São Paulo é uma metrópole onde tem de tudo. Entretanto, neste exato momento, há milhões de paulistanos se estressando dentro de seus carros. Isso é um grande manicômio, não é um mundo normal. Mas tal situação se repete em outras cidades pelo mundo. É um modelo em crise.
Como a cidade de São Paulo pode aproveitar os grandes eventos previstos para os próximos anos, como a Copa do Mundo de 2014, para se valorizar ainda mais?
Esses eventos são grandes ocasiões, grandes vitrines ao mundo. É a hora de o Brasil mostrar que é um país com seriedade, felicidade, acolhimento e alegria. Mostrar que o brasileiro tem mais cordialidade, civilidade e cultura. É a ocasião perfeita para divulgar o modelo brasileiro ao mundo, um momento mágico, que não se repete na história do País.
Qual é esse modelo brasileiro, afinal?
Por modelo, entendo um tipo de vida que se pode propor aos outros para melhorar o mundo. Há elementos positivos e negativos no modelo brasileiro. Por um lado, existem o analfabetismo, as diferenças sociais, a corrupção e a violência. Por outro, trata-se de um dos maiores países do mundo, uma grande democracia, um país pacífico, sem envolvimento em guerras. Tem racismo, mas não é um racismo forte. E há uma cultura farta de alegria, de sensualidade e de solidariedade. O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes.
No ano passado, o senhor participou de um evento promovido pela Associação Paulista Viva, que tinha o projeto de elaborar e instalar um núcleo criativo na Avenida Paulista. Qual é a ideia desse trabalho?
Espero muito que isso vá adiante, porque se trata de uma ideia fantástica: transformar uma via, a Avenida Paulista, única no mundo, rica e belíssima, em uma vitrine da criatividade do Brasil. Acho essa ideia extraordinária.
Qual o seu lugar favorito na cidade de São Paulo?
Sou grande apaixonado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (morto em dezembro de 2012). Eu era muito amigo dele e gosto de todas as obras de sua autoria. Aqui na cidade de São Paulo, destaco o complexo do Memorial da América Latina e as construções do Parque do Ibirapuera, como a Oca e o Auditório. São grandes obras da arquitetura contemporânea.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-estupido-que-cidades-ricas-sejam-infelizes-,1012596,0.htm
O sociólogo italiano Domenico de Masi, de 75 anos, professor da Universidade La Sapienza, de Roma, reafirmou na semana passada, em visita ao Brasil, sua admiração pelo País. Ele também analisou a vocação de São Paulo em meio ao cenário socioeconômico contemporâneo e disse que a cidade tem de ser uma "vitrine de criatividade".
"O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes", disse o pensador, que se tornou famoso após a publicação, em 1995, do livro O Ócio Criativo (lançado no Brasil em 2000).
Na obra, Masi defende uma vida mais equilibrada entre trabalho, estudo e lazer. "Às vezes, as pessoas fazem confusão. Ócio criativo não significa não fazer nada, não é preguiça", ressaltou. "Ócio criativo é o trabalho prazeroso, é aliar trabalho a lazer e alegria, transformando-o, portanto, em um trabalho criativo."
Em meio a uma maratona de eventos prevista em sua agenda no Brasil, o sociólogo recebeu a reportagem do Estado na tarde de terça-feira, antes de proferir uma palestra para os professores e funcionários do Colégio Dante Alighieri, no bairro dos Jardins, na zona sul da capital paulista.
Como falar em ócio criativo em São Paulo, uma cidade em que as pessoas perdem tanto tempo no trânsito e no trabalho?
O trânsito exagerado é uma demonstração de progresso não equilibrado. Essa situação poderia ser aliviada com a intensificação do teletrabalho (sistema de home office, em que o trabalhador realiza as tarefas em seu domicílio, com ajuda da internet e outras tecnologias). Por que essa necessidade de ir ao escritório? Eu chamo isso de complexo de Bill Clinton, em que o sujeito quer ir ao escritório só para encontrar a estagiária. Hoje em dia, é possível trabalhar tranquilamente de casa. A questão é a felicidade.
De que maneira a felicidade pode ser consequência desse processo?
Da riqueza, precisamos extrair a felicidade. É estúpido que cidades mais ricas sejam mais infelizes. São Paulo é uma metrópole onde tem de tudo. Entretanto, neste exato momento, há milhões de paulistanos se estressando dentro de seus carros. Isso é um grande manicômio, não é um mundo normal. Mas tal situação se repete em outras cidades pelo mundo. É um modelo em crise.
Como a cidade de São Paulo pode aproveitar os grandes eventos previstos para os próximos anos, como a Copa do Mundo de 2014, para se valorizar ainda mais?
Esses eventos são grandes ocasiões, grandes vitrines ao mundo. É a hora de o Brasil mostrar que é um país com seriedade, felicidade, acolhimento e alegria. Mostrar que o brasileiro tem mais cordialidade, civilidade e cultura. É a ocasião perfeita para divulgar o modelo brasileiro ao mundo, um momento mágico, que não se repete na história do País.
Qual é esse modelo brasileiro, afinal?
Por modelo, entendo um tipo de vida que se pode propor aos outros para melhorar o mundo. Há elementos positivos e negativos no modelo brasileiro. Por um lado, existem o analfabetismo, as diferenças sociais, a corrupção e a violência. Por outro, trata-se de um dos maiores países do mundo, uma grande democracia, um país pacífico, sem envolvimento em guerras. Tem racismo, mas não é um racismo forte. E há uma cultura farta de alegria, de sensualidade e de solidariedade. O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes.
No ano passado, o senhor participou de um evento promovido pela Associação Paulista Viva, que tinha o projeto de elaborar e instalar um núcleo criativo na Avenida Paulista. Qual é a ideia desse trabalho?
Espero muito que isso vá adiante, porque se trata de uma ideia fantástica: transformar uma via, a Avenida Paulista, única no mundo, rica e belíssima, em uma vitrine da criatividade do Brasil. Acho essa ideia extraordinária.
Qual o seu lugar favorito na cidade de São Paulo?
Sou grande apaixonado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (morto em dezembro de 2012). Eu era muito amigo dele e gosto de todas as obras de sua autoria. Aqui na cidade de São Paulo, destaco o complexo do Memorial da América Latina e as construções do Parque do Ibirapuera, como a Oca e o Auditório. São grandes obras da arquitetura contemporânea.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-estupido-que-cidades-ricas-sejam-infelizes-,1012596,0.htm
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